TRZ Crew: 24 anos de arte e identidade

O coletivo acreano transformou o grafite em ferramenta de expressão cultural e conquista reconhecimento em projetos de revitalização de espaços públicos.

Por Ana Luiza Pedroza e Wellington Vidal

Os muros de Rio Branco deixaram de ser apenas paredes de concreto para se tornarem verdadeiras galerias a céu aberto. Em meio às cores e aos traços, surgem elementos da Amazônia, da cultura acreana e das vivências da periferia, que transformam espaços públicos em cenários de identidade e pertencimento. Parte dessa mudança leva a assinatura do Coletivo de Culturas Urbanas TRZ Crew, que completa 24 anos de atuação e se consolida como uma das principais referências do grafite e da cultura urbana no Acre.

Esse percurso, construído ao longo de mais de duas décadas, começa a ganhar um novo capítulo. Em junho, a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) lançou um credenciamento voltado para artistas visuais, que permite que grafiteiros participem diretamente de projetos de revitalização urbana. Para quem acompanha a trajetória do TRZ Crew desde o início, a iniciativa representa o reconhecimento de um trabalho que começou muito antes do grafite ocupar espaço nas políticas públicas acreanas.

À frente dessa história está José Alberto Júnior, de 47 anos, conhecido artisticamente como JR. TRZ. Fundador do coletivo ao lado do irmão, ele viu o grafite deixar de ser confundido com pichação para ocupar escolas, unidades de saúde, viadutos e outros espaços públicos da capital.

O começo de tudo

A relação de JR com o grafite começou ainda na juventude, durante o período em que viveu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ali teve contato com o movimento hip-hop e encontrou na arte urbana uma forma de expressão que mudaria sua vida. “O grafite foi o primeiro elemento do hip-hop que me chamou muita atenção. A gente gostava de desenhar e, quando fundou a TRZ, já começou fazendo a nossa própria arte,” contou.

José Alberto Júnior, conhecido popularmente  como “TRZ” , é o principal representante do coletivo e vive da arte desde os anos 2000. Foto: Cedida.

Ao retornar ao Acre, em 2000, ele encontrou uma realidade diferente daquela vivida nos grandes centros. Ao lado do irmão, decidiu criar um coletivo que reunisse artistas ligados ao skate, ao rap e ao grafite, para destacar uma cena cultural que ainda dava seus primeiros passos no estado.

O nome TRZ surgiu da palavra “Tribaliz“, uma referência ao desejo de fortalecer as chamadas tribos do underground. Hoje, o coletivo reúne oito integrantes que atuam em diferentes linguagens, como grafite, tatuagem, poesia, fotografia, audiovisual e produção cultural.

Quando a arte virou profissão

A decisão de viver exclusivamente da arte exigiu coragem. Na época, JR cursava Biologia na Universidade Federal do Acre (Ufac) e havia sido aprovado em concurso público para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estabilidade parecia o caminho mais seguro, mas ele decidiu apostar no grafite.

“Passei no concurso para o IBGE, mas não conseguia me ver naquele espaço. Peguei minha rescisão, investi em compressor, em equipamentos e parti para a arte “, relembra.

A escolha marcou o início de uma trajetória profissional construída sobre oficinas, festivais, projetos culturais e pinturas realizadas em diferentes regiões do estado e do país. 

Uma conquista construída nos muros

No início dos anos 2000, o grafite ainda era frequentemente confundido com pichação. JR lembra que uma das primeiras intervenções realizadas pelo coletivo, em um muro no Canal da Maternidade, chegou a ser interrompida pela polícia, mesmo contando com autorização governamental. Para ele, a mudança de percepção aconteceu aos poucos.

“Eu não chamo de contribuir, eu te chamo conquistar, né? Na real, nunca foi aberto um espaço, o grafite era só coadjuvante. O grafite se tornou protagonista assim, conquistando espaços levando a arte pra todos os lugares, mesmo não autorizado”, finaliza.

Jornal OPINIÃO, edição de 12 de fevereiro de 2017. Foto: Arquivo.

Ao longo dos anos, essa mobilização também resultou em avanços na legislação. Em 2018, após um mural produzido na Escola Glória Perez começar a ser apagado durante uma reforma, artistas e estudantes se mobilizaram pela preservação da obra. O episódio deu origem à  Lei Municipal nº 2.283, que protege grafites autorizados em Rio Branco.

Hoje, além das leis voltadas à valorização do hip-hop, o movimento também começa a ganhar espaço nas políticas públicas estaduais. Recentemente, a Secretaria de Estado de Obras Públicas abriu um credenciamento para artistas visuais interessados em atuar em projetos de revitalização urbana.

Segundo o secretário Ítalo Lopes, a iniciativa representa uma nova forma de reconhecer esses profissionais. “A gente sabe da capacidade, do poder que a arte visual, o grafite e outras formas de expressão têm para dar valor às obras, aos espaços e tornar os nossos ambientes mais humanos”, afirma.

Além de facilitar a contratação dos artistas, o credenciamento busca fortalecer sua atuação profissional e ampliar a presença da arte nas obras públicas.

A Amazônia pintada nos muros

Entre animais da floresta, personagens, rios e símbolos regionais, as obras produzidas pelo TRZ Crew carregam referências que ajudam a contar a história do Acre. Segundo JR, essa identidade acompanha naturalmente os artistas amazônicos.

“Isso é uma coisa muito da galera do Norte, que carrega na sua arte alguma coisa da Amazônia. Na arte também a gente carrega nossa identidade. Eu, por exemplo, gosto de pintar a flor de lótus, a mãe da mata e outros personagens e símbolos que passam alguma força daqui”.

Mais do que uma escolha estética, os murais procuram aproximar a população de sua própria história e fortalecer o sentimento de pertencimento por meio da arte.

Maior grafite do Acre, obra de TRZ Crew. Foto: Cedida

Muito além da pintura

Embora seja conhecido pelos grandes murais espalhados pela cidade, o trabalho do coletivo vai além da pintura.

Antes de cada intervenção em escolas e comunidades, os artistas promovem rodas de conversa com estudantes e moradores para compreender quais temas fazem parte daquela realidade. Questões como bullying, respeito, identidade cultural e convivência costumam orientar a criação das obras.

“A gente chega primeiro para trocar ideia. Pergunta o que eles querem mudar ali. A partir disso, cria os desenhos junto com eles.”

Jr Trz ministrando roda de conversa sobre a arte do grafite. Foto: cedida

Esse mesmo princípio norteia o projeto Grafite e Arte nas Quebradas, que oferece oficinas gratuitas de grafite, desenho, fotografia, audiovisual e cultura hip-hop em comunidades periféricas.

O impacto pode ser visto dentro do próprio coletivo. “Três artistas da minha crew são frutos das oficinas. A gente aprendeu tudo com o hip-hop dentro das periferias. Então, a gente tem que devolver isso para lá”, enfatiza o artista.

Reconhecido nacionalmente, o projeto já recebeu premiações como o “Periferia Viva” e foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), reconhecendo o impacto social desenvolvido junto às comunidades.

Coletivo Trz sendo premiado pelos grafites feitos no estado do Acre. Foto: cedida

Mesmo após 24 anos de atuação, o TRZ Crew continua expandindo sua presença dentro e fora do Acre. Além das oficinas, dos trabalhos em espaços públicos e da organização do Acre Grafite – festival internacional que reúne artistas de diferentes regiões do país –, o coletivo mantém um objetivo que resume sua trajetória. “A gente quer deixar uma arte em cada município e conversar com essa juventude.”, concluiu.

Redação

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