Por Ana Keli e Paulo Medeiros
A pesquisa sobre terremotos desenvolvida na Universidade Federal do Acre (Ufac) revelou que o estado registra abalos sísmicos, principalmente na região de Tarauacá, contrariando a ideia de que no Brasil não ocorrem terremotos. O estudo teve início em 2018, por meio de um projeto de iniciação científica, e foi ampliado com pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Ufac. Os levantamentos buscam identificar a quantidade, magnitude, profundidade e localização dos tremores.
O professor e pesquisador Waldemir Santos, coordenador do projeto, explica que as pesquisas apontam Tarauacá como a região mais afetada pelos tremores em razão das características específicas do relevo, marcado por áreas dissecadas e retrabalhadas, o que influencia diretamente a dinâmica geológica local.
“Identificamos que a região de Tarauacá é a mais atingida por tremores em razão do seu relevo ter uma condição específica, muito diferenciada do restante do estado. Um relevo dissecado e retrabalhado que dificulta atividades humanas”, explicou.
Há um artigo publicado do pesquisador e alguns discentes do mestrado em Geografia da Ufac com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos entre os anos 1963 e 2015, foram identificados abalos sísmicos na região de Tarauacá-Acre com terremotos de magnitude de 5º, 6º e até de 8º graus na Escala Richter, em profundidade de 550 a 600 km. (link para o artigo)
Terremotos que ocorreram no Acre por ano, profundidade e magnitude.

A linha vermelha indica a magnitude dos tremores, a maioria entre 4º e 7º graus na Escala Richter e os pontos indicam a profundidade em Km. Através da pesquisa junto ao Serviço Geológico Americano.
“Descobrimos também que os tremores são ocasionados de forma alinhada o que prevê certamente uma falha geológica na região de Tarauacá que parte o Acre ao meio. Tremores de alta magnitude e com grande profundidade. Então, imaginava-se que Cruzeiro do Sul era a área mais afetada pela proximidade com os Andes, mas identificamos que Tarauacá que é o município mais afetado”, esclarece o professor Santos.
Dados dos sismos a partir de 1950 a 2017 com Magnitude de 4.5° a 8°.
Terremotos geralmente são associados a grandes catástrofes e destruição de cidades inteiras.“Porém existem ocorrências de tremores e abalos sísmicos de grandes escalas no Acre. No entanto, com cerca de 600 quilômetros de profundidade, não traz tantos prejuízos à superfície. Mas se os terremotos forem em profundidades menores, pode ser perigoso”, alertou o pesquisador.
Atualmente, está em desenvolvimento um projeto de pesquisa junto ao laboratório de Geofísica da UFAC e Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em que foram adquiridas novas estações sismográficas por meio de emendas parlamentares.
“No Acre, agora foi iniciado esse monitoramento junto ao curso de Física e Geofísica, onde nós da Geografia contribuímos não só com a identificação dos tremores, mas também os efeitos sobre a população e mitigação desses efeitos com consequências extremas.”, pontuou Waldemir Santos.
Formas de relevo região de Tarauacá possivelmente alteradas por tremores de terra
Ainda de acordo com o professor, a pesquisa continua na identificação das estruturas subsuperficiais, tipos rochosos e morfoestruturas existentes, se existem dobras ou falhas geológicas na região de Tarauacá e procurando saber os efeitos nas bacias dos rios Gregório e Acuraua. Esta etapa do estudo está sendo realizada juntamente com o mestrando em Geografia Lucas Prado, com orientação do professor Waldemir Santos.
Formas de relevo região de Tarauacá possivelmente alteradas por abalos
Professor e o seu orientando do Mestrado em Geografia
Prado explica que:“embora muitos dos sismos registrados na região de Tarauacá sejam profundos, isso não significa que eles sejam irrelevantes para a superfície” analisou.
Para ele, pesquisas como esta são de extrema importância para construção de conhecimento científico sobre a Amazônia, tanto no aspecto acadêmico quanto no aspecto social.
“A pesquisa trata de um tema diretamente ligado à realidade do Acre, mas que também possui relevância nacional” afirmou Prado.
O estudante disse também que busca:
“Observar os tremores não apenas como eventos pontuais, mas como parte de uma dinâmica mais ampla, que envolve estruturas geológicas profundas, formas de relevo, padrões de drenagem e possíveis evidências de controle estrutural na paisagem”.