Por: Danniely Silva e Ranelly Yasmim Pinheiro
Passeio gratuito pelo centro histórico convida moradores e turistas a redescobrirem a memória, a cultura e as histórias que moldaram a capital acreana.
Há uma espécie de cegueira que o hábito ensina. Ela se instala devagar, sem aviso, até que uma praça inteira com sua estátua, sua sombra de mangueiras e o nome gravado numa placa de metal se torne apenas um lugar de passagem entre a casa e o trabalho. É preciso, às vezes, o olhar de quem chega de fora para que o cotidiano volte a parecer digno de espanto.
E é exatamente desse contraste entre o olhar cansado de quem mora e o olhar desperto de quem visita que nasce o Acreane-se: Tour das Praças, iniciativa gratuita realizada durante edições do projeto Cultura na Praça.
O passeio atravessa o centro histórico de Rio Branco como quem folheia, em voz alta, um álbum de família que a cidade esqueceu de mostrar aos próprios filhos. A Praça da Revolução, tida como o marco zero da capital; a Praça Povos da Floresta, batizada em homenagem a quem primeiro habitou as margens; o entorno do Palácio Rio Branco, testemunha de décadas de poder e disputa. Ali, pedra e memória se confundem, e o roteiro se propõe a separar, fio por fio, o que o tempo teceu junto.
Atualmente, quem conduz essa atividade é o coletivo Cultura na Praça, por meio de guias habilitados pelo MTur, como a guia de turismo Thaly Figueiredo, integrante do Sindicato de Guias de Turismo do Estado do Acre (Singtur/AC). Para ela, o projeto nasceu de uma vontade quase filial: reaproximar o povo acreano da própria origem.
“O tour surgiu para que, ao caminhar entre as principais praças do centro histórico, pudéssemos compartilhar fatos da nossa história e curiosidades da sociedade acreana”, explica.

Imagem: Danniely Silva.
O óbvio que ninguém vê
Apaixonada pela história do Acre desde a infância, Thaly viu esse afeto se aprofundar quando passou a atuar no turismo regional. No ofício de guiar estranhos por ruas conhecidas, ela percebeu um paradoxo recorrente: são frequentemente os visitantes, e não os moradores, que se detêm diante do óbvio.
“Os moradores passam diariamente por esses lugares e acabam deixando de se perguntar por que as praças têm determinados nomes, quem foram essas pessoas ou o que representam aqueles símbolos. Já quem vem de fora costuma observar tudo com mais curiosidade”, afirma.
Mas o esquecimento, segundo ela, nunca é total. Ainda que o morador tenha deixado de perguntar, ele guarda muitas vezes sem saber fragmentos preciosos de memória herdados dos mais velhos. E é quando esses fragmentos emergem, no meio de uma caminhada qualquer, que o tour se transforma em algo maior que um passeio: um exercício coletivo de lembrar.
Thaly chama esse fenômeno de educação patrimonial, a história descendo dos livros escolares para pisar, enfim, no chão de quem a estuda.
“Quando uma pessoa visita esses espaços, ela associa aquilo que aprendeu na escola aos lugares reais da cidade. A história deixa de estar apenas nos livros e passa a fazer parte do cotidiano”, diz.
O olhar de quem chega
Se para quem mora o cotidiano costuma apagar os detalhes, para quem chega eles parecem saltar aos olhos. Foi essa a experiência do jornalista Daniel Nardin, morador de Belém (PA), que participou do Acreane-se: Tour das Praças durante uma visita ao Acre.
Para ele, conhecer a história de uma cidade é também uma forma de preservá-la.
“As pessoas só preservam e valorizam aquilo que conhecem. Encontrar diferentes maneiras de fazer com que elas conheçam mais sobre sua história e sua identidade é uma estratégia fundamental.”
Daniel afirma que um dos aspectos que mais o marcou foi perceber que o passeio transforma espaços aparentemente comuns em lugares carregados de significado.
“O banco em que você está sentado, o prédio que você está vendo, não são apenas paisagem. São histórias. O caminho deixa de ser apenas um trajeto entre um ponto e outro e passa a ajudar a compreender o passado, entender o presente e pensar o futuro.”
Antes da visita, Daniel já havia pesquisado sobre a história acreana para uma reportagem que produzia no estado. Ainda assim, conta que o tour ampliou sua compreensão sobre a formação do Acre.
“Conhecer a história a partir do próprio território faz toda a diferença. A trajetória de Chico Mendes, a história de Galvez, os símbolos espalhados pelas praças e a influência dos povos indígenas e dos migrantes nordestinos ajudam a entender como foi construída a identidade acreana. É um conhecimento que precisa partir do Acre para o restante do Brasil.”
Ao final da experiência, o jornalista diz ter saído com uma percepção ainda mais positiva sobre Rio Branco e sobre o estado.
“O Tour das Praças é uma degustação do muito que o Acre ainda tem para mostrar. Como jornalista, gosto de investigar soluções, e vi nesse projeto uma delas. Em vez de apenas apontar que as pessoas conhecem pouco sua própria história, o tour oferece um caminho possível para mudar isso: reúne pessoas nas praças e faz com que elas redescubram sua própria identidade.”
A história escondida nas praças
Há revelações, no percurso, que resistem a qualquer indiferença. O prédio onde hoje funciona a Prefeitura Municipal, por exemplo, guarda um passado que poucos riobranquenses conhecem: antes de abrigar gestores e servidores, aquelas paredes serviram de presídio.
“Muita gente não sabe que o primeiro uso daquele prédio foi como presídio”, conta a guia.
Outra história, ainda mais rara, veio à tona pela boca de um morador durante uma das caminhadas, não dos arquivos, não dos livros, mas da memória viva de quem soube por quem soube. As roldanas que hoje repousam como peças históricas próximas à Ponte Metálica carregam um enredo digno de lenda: caíram no Rio Acre durante o transporte para a construção da ponte, foram dadas por perdidas, recuperadas meses depois e, ironicamente, nunca chegaram a ser usadas na obra. Décadas de silêncio se passaram até que o rio, numa de suas vazantes, as devolvesse à superfície e à história.
Para Thaly, episódios assim revelam algo mais amplo: uma parte considerável do passado acreano ainda sobrevive apenas pela tradição oral, à espera de quem se disponha a registrá-la antes que se perca de vez.
Preservar as praças, defende a guia, é preservar a própria identidade de um povo.
“Sempre que um povo conhece e valoriza suas raízes, torna-se mais consciente do seu lugar e da sua importância no mundo. Nosso território é fruto de muitos conflitos, da presença dos povos originários e de pessoas vindas de diferentes lugares. Relembrar essa trajetória é dar protagonismo à nossa própria história.”
Há também, nesse caminhar, um convite discreto ao desacelerar. Em meio à pressa que rege os dias, atravessar o centro histórico com o passo de quem escuta e não apenas de quem atravessa, transforma o trivial em descoberta. Depois da caminhada guiada, a programação cultural do Cultura na Praça segue com apresentações artísticas e feiras regionais, prolongando o encontro entre a cidade e a gente.
No fim, fica a pergunta que abriu esse percurso: quem conhece mais a própria história, o morador ou o turista? Depois de ouvir moradores, guias e visitantes, talvez a resposta não esteja em escolher entre um e outro. O turista oferece a curiosidade; o morador, a memória. Quando esses dois olhares caminham juntos, a cidade deixa de ser apenas cenário e volta a ser história
“Quem conhece a história do seu lugar aprende ainda mais a valorizar sua terra”, resume Thaly.